DEIXA A TORRE QUEIMAR!
- William o Crespo

- 18 de mai. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de jul. de 2024
Era uma noite comum na cela; dos sete, três estavam junto à porta, outro preparava café... Conversava sobre a vida lá fora com Vini e Fatman, aguardando o Jornal Nacional, quando me dei conta:
Imagine acordar e perceber que a liberdade não é mais sua, que nunca foi verdadeiramente livre. As pessoas exercem sua liberdade num estalar de dedos, e tudo pode ser perdido. E se, por um dia, você fosse preso por algumas horas? Parece incomum, mas... Pesquisando, descobri que a população carcerária do Brasil em 2019 era de 773.151 pessoas. Para comparar, o Maracanã comporta 78.838 pessoas. São dez Maracanãs de presos no Brasil, amontoados em cadeias e favelas. Em 2018, eu era um deles. Passei três meses numa penitenciária modular no Rio Grande do Sul. Conheci o mais temido e o mais louco dos presídios, o Central. Enquanto meu pesadelo durou cerca de 20 horas, conheci pessoas que estão lá há 20 anos, ou seja, passam vinte e quatro horas por dia ali. Na manhã de 12 de abril de 2018, chamaram meu nome e o do meu irmão para sermos transferidos para a Pecan. Deixe-me explicar: isso aconteceu porque fui à casa do meu irmão, envolvido com certas coisas. Dependência, ou o que for. Ele assumiu a responsabilidade. Mas até a audiência, vivi a situação mais tensa da minha vida. Psicológica e emocionalmente, não há controle, só a fé de que o dia justo virá. O dia em que a verdade será revelada. E, curiosamente, não ser daquele meio permitiu-me viver aquele momento, aprender com tudo e ainda manter o respeito pelas pessoas, e elas por mim e pela minha arte. Apesar dos erros, sempre há dois lados da moeda e histórias para ouvir. Toda história tem seu valor. E a justiça acontece. Minha liberdade veio no dia 24 de julho, enquanto o Jornal Nacional estava no ar, e William Bonner anunciava uma notícia, abafada pelo estalar da porta da cela e pelo grito pelo meu nome.


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